Felipe Azevedo Dantas Caléfe - Um Jornalista feito a mão
- Felipe Caléfe
- 7 de jun. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de jun. de 2021

Ao fim do ensino médio, um momento de vital importância se aproxima do jovem: ingressar num curso superior, e ainda antes disso, decidir qual carreira acadêmica seguir.
De maneira alguma me mantive desocupado ou encostado nesse tempo, pois desde os 15 anos trabalhava associando os períodos de aulas, a princípio na indústria metalúrgica, onde meu pai me inscreveu na renomada instituição Senai de aprendizagem profissional. Detestei cada minuto do período como jovem aprendiz, definitivamente não queria passar mais do que o tempo necessário produzindo peças de metal, o trabalho não era difícil ou extremamente pesado, mas uma coisa me incomodava desde o primeiro dia que entrei na indústria: era um trabalho completamente entediante, em minha percepção. Entrava quieto, produzia quieto e ia embora quieto, para a escola onde eu realmente gostava de produzir, ou me afundar na leitura de grossos livros de histórias, atividade qual eu encontrava prazer. Mesmo considerando esse contexto, não me comportava como um adolescente mimado e mantenho eterna gratidão ao meu pai pela atitude, mesmo sendo uma rotina indesejável, aprendi sobre o valor do dinheiro e tive a primeira noção do que é a vida profissional.
No fim do período de aprendizagem, passados dois anos, não desejei efetivação na indústria, pois se eu não sabia o que eu queria exatamente seguir, sabia que a metalurgia era definitivamente algo que eu não queria.
No alto dos meus 17 anos, realizei que nunca havia pensado muito a sério sobre faculdade. Apenas tinha noção que era ótimo com produção textual, graças aos incentivos à leitura desde minha primeira infância, creditados a minha mãe, que me apresentou inúmeros livros infanto-juvenis assim que aprendi a ler e a disciplina positiva imposta pela professora Neide, no primeiro ano do ensino fundamental, que como “punição” pela minha inquietude em sala de aula, me fez copiar a mão durante todo o ano letivo, todos os dias da semana de aula, um texto de um grande livro didático de literatura. No segundo mês eu já tinha pego gosto pela escrita manual.
Foram hábitos que desenvolvi com o tempo e garantiram sempre boas notas nas disciplinas associadas.
Raciocinando um pouco dentro desse contexto, e considerando que gostaria de seguir um ramo completamente diferente do qual já tinha exercido profissionalmente, me empolguei junto de um amigo ao fim do ensino médio que iríamos cursar Direito, numa faculdade do município.
No ano seguinte, dentro do mundo universitário, a cada semana que se passava eu percebia que o estudo de normas pré-estabelecidas com generosas doses de juspositivismo não me agradava, o que inclusive gerou na época diversas e enfáticas discussões com alguns professores. Era um jovem que não admitia a visão do mundo como legítima desde que estivesse de acordo com as normas redigidas por humanos, pois humanos são falhos e como consequência sua habilidade de estabelecer regras e exceções também é inerentemente passível de falhas. Com a percepção de que a sociedade precisa não apenas do preto e do branco, mas também do cinza para a avaliação crua de situações considerando o certo e errado, deixei a faculdade após o primeiro semestre.
Me mantive nos quatro anos seguintes pensando mais a fundo qual o segmento universitário que eu me encaixaria, sempre mantendo um trabalho ou outro, pois já era crescido e tinha minhas contas a pagar, não podia me dar ao luxo de sair da cidade e tentar infindavelmente diferentes cursos em universidades públicas. Precisava conciliar faculdade com a vida profissional. Nesse meio tempo cursei um técnico em enfermagem, precisava de estabilidade mercadológica e a área da saúde é uma ótima zona para isso, mas longe de mim ingressar de cabeça no curso superior de Enfermagem, vivenciava o suficiente do tipo de rotina que meus superiores administravam em relação a ter “jogo de cintura” com as pessoas. Sou sincero e talvez um tanto insensível demais para isso, algo meio frio de se dizer como profissional da saúde, mas eu realmente sou honesto.
Também quatro anos depois, trabalhando nesse segmento, comecei a ter as primeiras idealizações sobre seguir carreira jornalística. Adorava entrar em discussões sobre os factuais presentes nos grandes veículos, e no meu tempo livre gostava de pesquisar sobre a veracidade e pontos omitidos em artigos e matérias de grande circulação, a proficiência no inglês ajudava bastante nisso, pois alguns pontos de vista só se encontravam na mídia do exterior. O segmento criminalístico e investigativo já me instigavam a curiosidade, especialmente pelas generosas porções de demagogia muito presentes em matérias e artigos com esse contexto. Tinha a primeira percepção, mesmo sem saber, do que eram linhas editoriais, e sempre considerava isso ao interpretar um material publicado. Empresas jornalísticas também são empresas, e certas coisas são padrão para todas as empresas.
Encarar a produção jornalística dessa forma foi o maior gatilho que me motivou a ingressar nessa carreira universitária, agora sem ter saído no primeiro semestre e considerando minha rotina bem longe de monótona. Cada dia que se passa tenho maior bagagem para analisar e tecer pontos de vista sobre o jornalismo e os fatos correntes que são noticiados. Me lembro das motivações que tive, por parte da família e professores, os hábitos que desenvolvi desde a infância, e como eles colaboram até hoje na construção do profissional que tenho me tornado a cada dia. Essa parte do autoconhecimento profissional é provavelmente uma de minhas maiores conquistas, como objetivo final poder informar os acontecimentos como são, sem fazer uso de falácias, sofismas ou demagogia discursiva para mover a opinião das pessoas de forma favorável ao que eu redigir. Acredito que o dom da interpretação é livre.

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