Ela é feita das prosas e versos
- Ana Carolina Ramos

- 13 de jun. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 14 de jun. de 2021
Em 2017, o mundo perdeu uma das mulheres mais bravas e valentes que já vi, Dona Verinha, como costumava chamar quando ela estava possessa com Deus e o mundo. Deixou marido, cinco filhos e netos, de alguns não teve tempo de conhecer. Além disso, deixou saudade que dói e também muito aprendizado.
Era forte, aprendeu cedo que mulher para se fazer ouvida e respeitada precisava ser firme, e tratou de ensinar suas três meninas assim. Ah! E por falar em filhos, aí de quem se metesse com os dela. Leoa, arranjava confusão com quem fosse para proteger as crias.
Não tinha estudo, mas era dona de uma sabedoria que diploma nenhum ensina e dava lição em muito doutor. E o mais importante, sabia o preço de ser uma mulher forte e livre, e ter conhecimento e instrução é o único caminho para essa conquista.
A vida não era fácil, mas era gentil com ela por perto. Perder minha mãe bagunçou e destruiu qualquer plano de futuro. Não há quem mereça se sentir sem rumo ou sem ter onde se escorar, mas como diz a saudosa canção de Chico César “Caminho se conhece andando, então vez em quando é bom se perder”, perdida já estava e foi preciso coragem para caminhar.
A decisão de viajar sozinha sem destino ou plano era o desespero de encontrar novamente uma antiga eu, aquela que se perdeu aqui dentro. Mesmo com todo o amor da família que minha mãe me presenteou, me sentia sem vida e em alguns momentos nem me sentia mais.
Na mochila pouco dinheiro e nenhuma experiencia, mas havia esperança por coisas bonitas. Sem um planejamento certo e nenhuma pretensão de ir muito longe, meu caminho foi carregado de pessoas boas que confirmaram uma dúvida antiga “o mundo tem mais gente boa do que mais ou menos”.
E continuei, sozinha pelas estradas, por cidades, estados até chegar num país diferente e finalmente ver as "pecinhas" do meu coração se encaixando. E nesse tempo passei a escrever todas as angústias e alegrias do meu ser. Era dar espaço para a menina que se perdeu na minha bagunça encontrar segurança para sair e conquistar seu espaço.
Gosto de lembrar dos lugares que visitei e das pessoas que tive a alegria de conhecer, essa é a força que me move, a certeza que o caminho vai ser bonito mesmo que eu nem saiba onde quero chegar.
Foi assim que descobri a minha função social: ser conversa que conforta e sorriso que alegra. E que sorte a minha encontrar no jornalismo abrigo, dar voz a quem não é ouvido, e conectar emoções e pessoas.
A mulher e profissional que sou hoje vem sendo construída lentamente através de cada experiencia e espelhada na força da mulher que tive a honra de chamar de mãe. Porque mesmo em meio a tantas batalhas vividas e carregando as marcas deixadas na alma e na pele, posso garantir que elas não refletem quem sou. A jornalista que vos fala é feita das prosas e versos colhidos no caminho percorrido até aqui.
Texto por: Ana Carolina Ramos
Imagem por: Ana Carolina Ramos


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