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O DISCURSO DA PÍLULA

  • Foto do escritor: João Monteiro
    João Monteiro
  • 26 de ago. de 2021
  • 4 min de leitura

A “pílula vermelha”, um termo que vem do filme Matrix, de 1999, tornou-se uma estrutura para os indivíduos descreverem seu despertar para alguma suposta realidade anteriormente oculta. Os principais movimentos contemporâneos de supremacia masculina secular - PUAs, ativistas dos direitos dos homens, The Red Pill e Men Going their Own Way (MGTOW) - todos usam essa terminologia para descrever sua “compreensão” de que os homens não possuem poder ou privilégio sistêmico. Em vez disso, eles despertam para a “verdade” de que social, econômica e sexualmente os homens estão aos caprichos do poder e dos desejos das mulheres (e feministas). Como no filme, estar com a pele roxa é aceitar a narrativa dominante e escolher viver na ignorância das verdades do mundo. Os Red Pillers se consideram intelectualmente superiores aos "normies de pêlo azul".


A partir de 2016, os fóruns da extrema direita, ligados a misóginos e incels começaram a mudar de uma pílula vermelha para uma mentalidade cada vez maior de "pílula preta". Esse sistema de crenças aceita a visão da Red Pill da sociedade dominada por mulheres, mas rejeita as tentativas de nível individual, como o jogo de aprendizagem para conseguir um relacionamento sexual com mulheres, como equivocadas, afirmando que apenas a mudança em um nível social tem a possibilidade de ser eficaz. Os adeptos da pílula preta acreditam que a aparência é geneticamente determinada e que as mulheres escolhem os parceiros sexuais com base unicamente em características físicas (“aparência”), portanto, se uma pessoa será ou não um incel é predeterminado.


Os incels misóginos tentam provar a verdade da pílula negra por meio de leituras errôneas de estudos científicos, conjuntos de dados de namoro online e seus próprios “experimentos” para provar que as mulheres só se preocupam com a aparência física dos homens.


A filosofia da pílula preta normalmente oferece apenas duas opções para o que fazer com sua nova realidade aceita: aceitar seu destino como um incel ou tentar mudar a sociedade em seu benefício - geralmente defendida como potencialmente alcançável por meio de violência em massa e terror.


Tomemos uma cena memorável em que Neo tem de escolher entre a pílula vermelha e a azul; a opção é entre verdade e prazer: o despertar traumático no real ou a persistência na ilusão regulada pela Matrix. ele escolhe a Verdade, ao contrário do personagem mais desprezível do filme, o informante da Matrix infiltrado entre os rebeldes, que na cena memorável do diálogo com Smith, agente da matrix, pega um pedaço de carne vermelha e suculenta com seu garfo e diz: 'sei que é apenas uma ilusão virtual, mas não me importo, porque o gosto é real'. Em resumo, ele segue o princípio do prazer, que diz que é preferível permanecer na ilusão, mesmo sabendo que é só uma ilusão. Entretanto, a escolha de Matrix não é assim tão simples: o que, exatamente, Neo oferece à humanidade no final? Não o despertar direto no 'deserto do real', mas o livre flutuar entre a miríade de universos virtuais; em vez de sermos simplesmente escravizados pela Matrix, podemos nos libertar aprendendo a dirigir suas regras. podemos mudar as regras do nosso universo físico e; portanto, aprender a voar livremente e a violar outras leis físicas. Em resumo, a escolha não é entre a verdade amarga e a ilusão prazerosa, mas antes entre dois modos de ilusão: o traidor está preso à ilusão da nossa 'realidade', dominada e manipulada pela Matrix; já Neo oferece à humanidade a experiência do universo como um parque de diversões em que podemos participar de uma multiplicidade de jogos, passando livremente de um para outro, reconfigurando as regras que fixam nossa experiência da realidade.


Mas a escolha entre a pílula azul e a vermelha não é realmente uma escolha entre ilusão e realidade, claro, a matriz é uma máquina de ficção, mas essas são ficções que já estruturam nossa realidade se você tirar de nossa realidade as ficções simbólicas que regulavam você perde a própria realidade.


Eu quero propor uma outra pirula!

Definitivamente não é algum tipo de pílula transcendental que permite falsa experiência religiosa de fast food, mas uma pílula que me permitiria perceber não a realidade por trás da ilusão, mas a realidade na própria ilusão. Se algo fica muito traumático, muito violento, até mesmo para preenchê-lo com prazer quebra as coordenadas da nossa realidade, temos que ficcionaliza-lá.


Na sexualidade, nunca sou eu e meu parceiro - ou mais de um parceiro em o que quer que você esteja fazendo - sempre tem que haver algum elemento fantástico tem que haver algum terceiro elemento imaginário que me permite envolver na sexualidade.


Porque nossa líbido precisa do universo virtual de fantasias? Porque não podemos simplesmente apreciar diretamente um parceiro sexual? Porque precisamos desse suplemento virtual? Nossa libido precisa de ilusão para sustentar a si mesma.


Nosso delírio fundamental hoje não é acreditar no que é apenas ficção, que as ficções de hoje são muito sérias, mas é o contrário - não levar as ficções suficientemente a sério!


Você pensa que é apenas um jogo? é realidade! é mais real do que aparenta, pessoas que jogam videogames, elas adotam um personagem virtual de um sádico, um estuprador, Hulk agiota, tanto faz…


A idéia é: na realidade eu sou uma pessoa fraca, então no esforço de mascarar minha fraqueza na vida real eu adoto uma imagem falsa, de alguém forte, sexualmente promíscuo, e assim por diante.

Mas essa é a leitura ingênua: eu quero parecer forte mas ativo… porque na realidade eu sou uma pessoa fraca. Propomos uma leitura contrária, que esta identidade forte, brutal, estuprador, hulk agiota for meu verdadeiro eu?

No sentido que isto é a verdadeira psique de mim mesmo e que na vida real, por causa da coação social e tudo mais, e não seja capaz de pô-la em ação?


Precisamente porque eu penso que é só um joguinho, que é apenas um personagem, uma imagem segura que adoto no espaço tempo virtual, eu posso estar lá de forma muito mais verdadeira, eu posso agir com uma identidade que é muito mais próxima do meu verdadeiro eu.


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"Não devemos acreditar nos muitos que dizem que só as pessoas livres devem ser educadas, deveríamos antes acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres."
Epicteto, filósofo romano e ex-excravo

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