Fabio Barros- Contra o Mundo: Os Desafios de um Publicitário
- luizgx10
- 10 de mai. de 2021
- 5 min de leitura

Fabio Barros é VP Diretor de Criação Associado na Area23 (Foto: Arquivo pessoal/Instagram)
Qatar, Nova York, Dubai, lugares que enchem os olhos de muitos jovens dos mais diversos mercados. O publicitário Fabio Barros, VP Diretor de Criação Associado na Area23, em Nova York, fala sobre os desafios que teve para sair da Vila Barcelona, em Sorocaba, interior de São Paulo, e chegar em uma das grandes agências do mundo. Barros participou do “Connect Athon”, Semana de Comunicação promovida pela Athon Ensino Superior, com a palestra “Contra o mundo”, realizada em 3 de maio.
Confira a entrevista de Fabio Barros ao Portal Entretanto.
Portal Entretanto - Para a realização da palestra você escolheu um formato que está muito em alta, o podcast, por que esse formato foi escolhido?
Fabio Barros - Eu trabalho em Nova York, em uma agência de propaganda, onde o objetivo é sempre atingir o público final, deixá-lo confortável com o que está comprando. Eu tenho um irmão de 18 anos que faz Athon também, sei o quanto é difícil pegar a atenção de vocês num mundo globalizado e com internet. Quando fiz faculdade, a internet mal existia, então, uma palestra era vista com bons olhos. Hoje, no entanto, ninguém aguenta mais ficar tanto tempo em uma palestra. Tem uma plataforma que eu assino que são aulas de dez minutos. Para cativar o jovem hoje, você tem vários podcasts famosos, e meu irmão assiste esses podcasts. Eu perguntei “por que não?”, é muito fácil chegar e fazer uma palestra de como eu venci, então, acho que fazer esse “storytelling” de como eu cheguei lá era mais interessante e a melhor maneira de fazer isso era o podcast.
PE - O Dado (apresentador do podcast) disse que na sua infância você era uma criança criativa e curiosa que gostava de vários desenhos, como isso te ajudou a chegar aonde está hoje?
FB - Quando eu era criança, não pensava que o desenho estava me influenciando, assistia porque gostava como qualquer outra criança. Conforme fui entendendo mais a minha profissão, fui vendo que gostava do que faço hoje desde que nasci. Você pega o Jaspion, por exemplo, e o que ele tem? Tem “storytelling” bacana, uma música de abertura, um design lindo, e se for analisar, ali funciona como se fosse uma agência de propaganda mesmo. Muito depois, fui entender que essas referências me trouxeram até aqui. Foi uma boa coincidência.
PE - No podcast foi apresentado que as agências são um mercado muito rotativo, como um profissional consegue se firmar nesse mercado?
FB – Cara, como eu sempre falo, se você começa cedo, você cai cedo e se levanta muito cedo, é um risco que aceitei. Quando fui trabalhar na Cerquetto (Agência de Publicidade em Sorocaba), não fui demitido porque era ruim, pelo contrário, eu estava avançando para o próximo estágio e as pessoas mais velhas que estavam lá não estavam aceitando muito isso. Então, como um profissional consegue se firmar? Por vários motivos é difícil se firmar, é muito raro você ver pessoas com mais de quatro anos em uma agência, diretorias mudam, você tem o jogo dos egos, hoje seu chefe te adora, amanhã ele vai embora e tem outro. Você trabalha com criatividade e muitas vezes a cultura da empresa não combina mais com a sua e você tem que mudar. É tipo um “Game of Thrones” que você tem que entender, a cada chefe novo, você começa do zero nessa agência. As agências não são como empresas que têm mil funcionários e todo mundo se mantém lá, tem menos que a metade disso, então, cada peça é fundamental. É muito difícil, o que te mantém de pé no mercado é você ser criativo e isso ninguém tira de você. Se essa agência não gosta mais, outras vão gostar.
PE - Você, durante a palestra, citou que é preciso saber que nem sempre se ganha todas, e que não se pode ter medo de começar de novo. E quando você foi trabalhar em São Paulo (capital), saiu da sua zona de conforto onde estava bem e virou mais um, como lidou positivamente com isso?
FB - Cara, você citar positivamente é engraçado. Eu fiquei oito anos em São Paulo e só me acostumei no último, sempre fui ambicioso e quis crescer independente dos obstáculos. Acho que essa força de vontade fixou na minha cabeça e foi ficando, então, sempre que estava tudo escuro, via uma luz que falava que ia chegar aonde quis. Minha família era pobre, desistir não era uma opção para mim, tinha que fazer vingar o negócio. Vamos dizer que era um trabalho de autocura. Tipo, Fabio, se você não fizer isso não vai atingir seus objetivos, foi uma entre mim e eu mesmo.
PE - Você teve uma primeira passagem por Nova York, voltou para Sorocaba, depois Qatar e Dubai até voltar para Nova York. Como lidar com diferenças culturais tão grandes?
FB - Eu acho que o ser humano que não tem o privilégio de viajar e conhecer outras culturas acaba se tornando meio ignorante, e eu era. Eu não aceitei São Paulo, mudei para o Qatar onde fiquei oito meses e não aceitei. Quando fui para Dubai, consegui aceitar mais sobre maturidade, aceitar as culturas. Dubai é um hub mundial, trabalhei com pessoas das mais diversas nacionalidades. Trabalhando com essas pessoas e tomando pancada, fui aprendendo. Um dia pedi um trabalho para um egípcio e ele não sabia como fazer. Falei que o ensinava e, cara, ninguém ensina nada para um egípcio, você mostra como faz, mas não ensina. Minha mulher é polonesa, ela não entende meus jogos do Palmeiras toda semana, odeia churrasco brasileiro porque a gente pega a picanha e dividi em pedacinhos. Ela quer a peça da picanha inteira. Então, o primeiro sentimento era de ter raiva das pessoas, mas depois percebi que as pessoas são diferentes e é necessário dar um passo atrás, analisar o ambiente e depois se sentir confortável e ver de quem pode ser próximo.
PE - A pandemia veio e mudou a vida de todo mundo, como ela afetou o dia a dia do seu trabalho?
FB- Em relação ao meu trabalho, as campanhas não tiveram muitas mudanças, por exemplo, a Nike ainda quer vender tênis para o pessoal correr. Dentro da agência, a primeira coisa que mudou é que cada um está na sua casa, ninguém passa atrás de você para ver o que está fazendo nem para pedir favores. É um tempo que eu controlo mais, as gravações são todas online, fica o diretor lá no estúdio filmando, não preciso viajar para acompanhar. No mercado de propaganda foi legal, enche o saco ficar em casa toda hora, mas também enche ir na agência toda hora. Então, ficar em casa virou uma opção, mas no produto final não mudou muita coisa. Mas para mim é melhor.
PE- A agência que você trabalha presta serviços para a AstraZeneca, que é uma das vacinas utilizadas aqui no brasil, como você se sente sabendo que de certa forma ajuda a vender as vacinas?
FB- Cara, essa pergunta é muito legal, porque meu pai tomou vacina hoje e mandou a foto que era da AstraZeneca. E a campanha mundial é minha. Fiz o logo, escolhi as cores, foto, website, tudo que se pode ver nessa campanha é minha criação. É bem legal participar de um momento importante como esse e a minha cabeça ajudar a criar essa campanha, eu sinto como se fizesse parte da história. Eu sei que nesse momento uma marca, se ela é roxa e amarela, o logo é uma estrela ou uma bola, pouco importa, mas é interessante saber que fui eu que criei a “guideline” (direção) desse produto.

Fabio criou a campanha mundial da AstraZeneca, vacina utilizada no Brasil e em diversos países (Foto: Divulgação)




Comentários