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O domingão era legal

  • Gledson Félix
  • 23 de jun. de 2021
  • 3 min de leitura

Chega ao fim uma era na televisão brasileira.

Nos anos 1990, era comum a família brasileira se reunir em frente a televisão, pois naquele tempo ainda não existia celular, internet, tablets e outros equipamentos que levassem informação ao telespectador, como uma segunda tela, o que acontece hoje.

Naquele tempo, a emoção era acordar aos domingos para assistir o Galvão Bueno narrar as memoráveis corridas do piloto Ayrton Senna, (que veio a falecer em um trágico acidente durante uma corrida em 1994), e, mais tarde, acompanhar os programas dominicais daqueles que se consagrariam na apresentação de programas de auditório. Claro, deve-se lembrar que o rei sempre foi e será Silvio Santos, que comanda sua atração aos domingos há mais de sete décadas e apenas está fora do ar devido a pandemia, pois o Silvio já é um vovô de 90 anos.

Voltando as atrações, pelo SBT, Augusto Liberato, o Gugu, pupilo de Silvio, começou com um programa pequeno, antes do seu chefe aos domingos, e se tornou o grande mestre dos programas de auditório. A tv dos anos 1990 permitia tudo: desde crianças rebolando com adultos em cima de uma garrafa, bundas aparecendo dentro de uma banheira, repórter acordando artistas de pijamas até entrevista com, pasme, extraterrestres. Esse era o programa de boa parte das famílias durante os domingos: ver o Gugu, vestido de mendigo no centro da capital paulista, ou indo até um aterro sanitário vendo de perto a situação dos mendigos no interior da Paraíba. Mas ele não era único, pois isso começou a despertar a atenção da concorrência, vendo seus filmes perderem espaços para programas que mostravam a realidade de uma camada da sociedade brasileira. Neste contra-ataque, a concorrente, Rede Globo, apostou no radialista e apresentador Faustão, que fazia sucesso na Band mostrando o cenário caindo, os bastidores do programa e atrações ao vivo, com todos os perrengues imagináveis. Estava lançada a guerra pela audiência, a briga por cada televisor ligado no país, para quem mantinha por mais tempo, a audiência do telespectador. Fausto Silva, que por 32 anos comandou, ao vivo e ininterruptamente, o seu programa no melhor estilo zorra total, entrava na briga.

A cada semana uma inovação chamava a atenção do telespectador que, muitas vezes, migrava de canal várias vezes durante os embates entre os principais apresentadores. Aliás, a Rede Globo inovou ao dividir o programa em dois blocos quando a emissora passou a transmitir futebol, onde o programa do Faustão começava às 15h, dava uma pausa das 16h às 18h para o jogo, e voltava para o ar, enquanto no SBT, Gugu trazia atrações internacionais conhecidas pelo público como Chaves, Shakira, Julio Iglesias e outros artistas, opção para quem não queria assistir ao futebol.

Desde promoções com sorteios ao vivo de um caminhão de prêmios, na Globo, até a compra de um helicóptero para entradas ao vivo da repórter Silvana Kieling, no SBT, os domingos eram cheios de emoção. O Brasil chorou com Gugu, em 1996, com a queda do avião do grupo Mamonas Assassinas, em um domingo chuvoso, quando retornavam para Guarulhos-SP, depois de um show. Riu com as mesmas vídeo-cassetadas todo final de semana no Faustão. Não entendeu nada com a promoção da Nestlé, em 2003, que uniu os dois principais rivais no domingo apresentando juntos, cada um em seu programa mas ambos simultaneamente, o início da campanha de marketing da empresa.


Gugu e Faustão na Promoção da Nestlé, em 2003. (Imagem: Reprodução)


Esse era o domingo que, logo após o almoço em família, todos se reuniam na sala pra conversar um pouco e ver tv, afinal, era aquilo que trazia a sensação de família para muita gente.

Gugu, após 16 anos apresentando o Domingo Legal, no SBT, deixou a emissora e partiu para outros projetos. Faleceu em 2019, após um acidente doméstico em sua casa, nos Estados Unidos. Deixou uma legião de fãs e admiradores, pois além de apresentador, foi criador de quadros inesquecíveis como o “Táxi do Gugu”, onde percorria diversas cidades como taxista e entrevistava os passageiros até o seu destino, além de ter lançado diversos artistas que fazem sucesso até hoje.

Fausto Silva, o Faustão, que sabia usar muito bem todo o rico casting de artistas globais em suas atrações, lançou muito sucesso musical que se apresenta até hoje, após mais de três décadas dedicadas a Rede Globo, teve um problema de saúde e acabou sendo substituído definitivamente sem se despedir do seu público, pois teria contrato com a emissora até o final do ano, quando iria se mudar para Tv Bandeirantes.

Ambos apresentadores, além de gênios na arte da comunicação, deixaram um legado para todos aqueles que, de alguma forma, estudam o que é comunicar. Eles inovaram, foram além do seu tempo, criaram padrões e eternizaram um dia da semana, que reunia alegria, informação, descontração e, principalmente, reunia a família em frente a televisão.

Consagrados em sua profissão, fizeram a televisão dos anos 1990 ter sempre um Domingo Legal e, se não estivesse tão legal assim, o Domingão era do Faustão.

 
 
 

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"Não devemos acreditar nos muitos que dizem que só as pessoas livres devem ser educadas, deveríamos antes acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres."
Epicteto, filósofo romano e ex-excravo

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