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Mara Rovida - Jornalismo das Periferias

  • Foto do escritor: João Monteiro
    João Monteiro
  • 10 de mai. de 2021
  • 5 min de leitura

A crescente influência de atores que podem não se encaixar em definições tradicionais de um jornalista, mas estão participando de processos que produzem jornalismo tem atraído atenção acadêmica. À medida que os estudiosos do jornalismo lidam com a forma de se referir a esses atores, é importante refletir sobre as suposições que fundamentam rótulos emergentes.


Na última terça-feira (4) de maio, tivemos o prazer de receber A Mara Rovida na Connect Athon, semana da comunicação da Athon - Ensino Superior, que bateu um papo com a gente sobre Jornalismo nas Periferias.


Mara é Jornalista, mestre em Comunicação Social (Cásper Líbero) e doutora em Comunicação e Artes (ECA-USP). Docente do Programa de Pós-Graduação de Comunicação e Cultura (Uniso). Publicou três livros na área de jornalismo em relação à ocupação dos espaços urbanos.


A Palestra começou com a conceituações da sua própria pesquisa com relatos da pesquisa de campo, que posteriormente se transformaram nos relatos do livro.


“Em relação a sua pesquisa, e posteriormente o relato em livro, como nasceu esse projeto?

O projeto surgiu a partir do contato que tive com o trabalho das comunicadoras que criaram a empresa jornalística “Nós, mulheres da periferia”. Conheci esse projeto por intermédio da jornalista Lívia Lima que me foi apresentada por uma amiga, professora de jornalismo da faculdade da cidade de São Paulo, quando organizei um evento, uma mesa de discussão, em uma faculdade da mesma cidade, onde lecionei de 2015 a 2017. Fiz uma pesquisa exploratória no site nosmulheresdaperiferia.com.br para entender melhor como essa produção jornalística é desenvolvida e foi assim que descobri outros produtores de jornalismo que atuam nas quebradas da Região Metropolitana de São Paulo. Essa descoberta foi o ponto inicial do projeto que resultou no livro.”


Como entrou em contato com esses projetos/agências/Produtoras da quebrada?


“Depois de conhecer as comunicadoras do “Nós” e descobrir a Rede Jornalistas das Periferias que congrega vários outros grupos de produtores comunicacionais das periferias, eu comecei a procurar os contatos de algumas dessas pessoas para me apresentar e pedir para conhecer mais de perto o trabalho por elas desenvolvido. Fui a um evento promovido pela Rede, em 2017, a I Virada Comunicação, e fiz alguns contatos ali também. Descobri algumas pessoas do meu convívio que faziam parte de alguns desses grupos e fui levantando e-mails, números de telefone, contatos em redes sociais para falar com os jornalistas.”


Falamos do papel do jornalismo e do próprio jornalista como agente de mediação social, sua responsabilidade pela com a informação e a formação da narrativa e a identificação do espectador com o pertencimento que permeia ali uma identidade, marcas e suas participações coletivas.


Nós jornalistas falamos muito em dar voz, muito importante, mas quando falamos da periferia, essas pessoas nem são ouvidas, nem entendidas como fontes, isto se dá pelo distanciamento daqueles que fazem jornalismo com a periferia? qual a importância desses projetos nesse combate a exclusão e esquecimento da periferia?


“Em primeiro lugar, eu não diria que os jornalistas dão voz para as pessoas – isso eu aprendi com um jornalista que foi meu aluno na graduação e passou por alguns desses grupos de jornalistas das periferias –, porque elas têm voz própria. O que fazemos é primeiro dar ouvidos, fazer uma escuta atenta do que elas dizem e depois reverberam sua fala. Nesse sentido, sua indicação está muito certa: o distanciamento entre quem produz o jornalismo e esses personagens da cidade é um problema para que esse diálogo se estabeleça. O perfil dos jornalistas que atuam nas empresas/corporações de mídia é hegemonicamente formado por jovens de classe média, média alta, brancos e graduados em escolas centrais. Dificilmente essas pessoas conhecem os bairros mais distantes dos centros estruturados das cidades onde moram. Vencer esse distanciamento demanda disposição para ir até os lugares, conversar com as pessoas e, principalmente, colocar à prova estereótipos e conceitos pré-estabelecidos. Por isso, quem produz uma narrativa engajada com o território porque fala a partir dos lugares onde os fatos apresentados acontecem presta um grande serviço à sociedade. É a partir dessas outras narrativas que hoje se percebe um cuidado, uma atenção e um interesse crescentes sobre as pautas das periferias de uma forma mais plural.”


A periferia sempre deu um jeito de ocupar os espaços da comunicação de massa, falando de seu território e realidade, seja ela nas músicas, artes plásticas, dança e até de projetos de jornalismo e rádio, mas sobre minha perspectiva só recentemente tivemos uma grande popularização desses jornais como por exemplo a voz das comunidades do Rene Silva. Ao que se deve o aumento e popularização e profissionalização dessas agências de jornalismo das quebradas recentemente? Estou correto em afirmar que só agora que se popularizaram?


“Na verdade, você não está totalmente incorreto, porque realmente a visibilidade desses produtores de comunicação aumentou significativamente nos últimos anos. Mas isso se deve a um processo histórico, a um processo que vem de muitos anos e que agora apresenta resultados mais palpáveis. Então desde os 1990 (e até antes), a mobilização das periferias promovida por agentes culturais tem repercutido entre os comunicadores. Assim, não é um fator isolado dos últimos anos, mas um processo mais amplo de diálogo com diferentes agentes sociais que atuam nos territórios. Paralelamente a isso, observa-se que a profissionalização apresentada agora se deve muito ao desenvolvimento de políticas públicas que facilitaram o acesso ao ensino superior (Reuni, Prouni, Fies, por exemplo). Esses jovens à frente de grupos de jornalistas das periferias trazem consigo a experiência de serem os primeiros de suas famílias a acessar o ensino superior. Então, há uma relação entre a formação profissional, o amadurecimento dos movimentos culturais/sociais das periferias e a experiência desses jovens comunicadores com o território para que esse fenômeno com visibilidade ampliada se formasse nesses últimos anos.”


Conversamos sobre “a diversidade” estar dentro da quebrada, os corpos negros, os corpos trans e as drag se montando, estão dentro das periferias, porque o primeiro recorte na relação centro periferia é de classe, por isso que quando falamos de inclusão nos espaços de mídia temos que falar da periferia.


Conversamos também sobre como a mídia tem uma clara e evidente influência na disseminação de sensos comuns que normalmente envolve preconceitos senso comum, que muitas vezes envolve preconceitos, discriminações e estigmatização. Isso impacta de forma muito decisiva na luta pela garantia de direitos humanos básicos na vida de todos os cidadãos.


Durante as perguntas falamos sobre a descentralização dos meios de comunicação, que já vem sendo feitas, de uma mídia cuidadosa, de observar o sujeito da periferia, para relatar um fato envolvido. Mas também dos problemas daquele Jornalismo de olhar de helicóptero, feito por programas, pinga sangue policialesco, aquele feito com pressa que não entendem os moradores da periferia como fontes oficiais.

Normalmente recorrendo somente as “fontes oficiais” um órgão público a ou polícia, justamente aqueles que não estão presentes na opressão da periferia.


 
 
 

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"Não devemos acreditar nos muitos que dizem que só as pessoas livres devem ser educadas, deveríamos antes acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres."
Epicteto, filósofo romano e ex-excravo

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