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Por que tão sério?

  • Foto do escritor: Felipe Caléfe
    Felipe Caléfe
  • 28 de mar. de 2021
  • 2 min de leitura

Com volume razoável de trabalho, sozinho em meu setor duas horas após iniciar meu plantão, ouço a campainha de atendimento ser tocada 5 vezes consecutivas. Foi o suficiente para me deixar demasiadamente contrariado. Hospitais deveriam dar o exemplo de seriedade profissional, principalmente no momento atual de grande urgência.


Quando abro a pequena porta para recepção de materiais, me deparo com um funcionário com ar alegre, fazendo contraste a minha fachada natural de poucos amigos. junto dele uma caixa repleta de materiais sujos para entrega, sinalizo com a mão para me passar a caixa para eu realizar a conferência e após isso assinar seu registro de recebimentos. Sem dizer uma única palavra.


“Por que está tão sério?”


Após ouvir esse questionamento em tom de deboche, levantei meus olhos e por menos de 1 segundo fitei o funcionário, eu poderia tê-lo respondido minhas razões, sobre como mesmo no contexto atual e dentro da área da saúde cirurgias sem necessidade de urgência são agendadas como tais por pura conveniência financeira dos cirurgiões, ou sobre como mesmo com a restrição de circulação a população lota o pronto socorro mesmo sem devida necessidade, amedrontada pelo terror midiático fomentado por rinhas de galo políticas, essas usando ao invés de esporões, cacarejando demagogia de ambos os lados, em apostas propagadas pelos grandes veículos, ao invés de tanto o órgão de administração quanto o informativo buscarem juntos uma remediação eficaz a crise atual.


Preferi guardar para mim mesmo a longa resposta e ignorar a questão.

Não sou bom em fingir simpatia, acredito que por isso me dou bem no setor onde não preciso lidar com pacientes… O que de maneira alguma significa que não me importo com seu bem estar.


Entre os materiais havia equipamento respiratório com identificação de um paciente, o que significa que foi um caso de óbito.

Não sou bom em fingir que está tudo bem. Não recrimino o funcionário por sua atitude alegre, na verdade admiro quem consegue se expressar de tal forma em um local de trabalho com real atmosfera tão pesada.


Guardo os longos e negativos pensamentos para mim mesmo. Após assinar o registro de recebimento me despeço com um seco, mas honesto, obrigado.


 
 
 

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"Não devemos acreditar nos muitos que dizem que só as pessoas livres devem ser educadas, deveríamos antes acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres."
Epicteto, filósofo romano e ex-excravo

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