A "obra de arte" como mercadoria pura
- João Monteiro
- 14 de mar. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de mar. de 2021
A casa de leilões Christie's vendeu sua primeira obra de arte puramente digital, na quinta-feira (11 de março 2021), por um recorde de US $ 69 milhões, o preço mais alto pago por um NFT, ou token não fungível.
Os NFTs (Non Fungible Tokens), como um termo guarda-chuva, significam apenas que cada token digital na rede é único. Cada token contém um pequeno pedaço de dados que é exclusivo do token. São apenas pequenos contêineres de dados sendo enviados ao redor da blockchain entre endereços. Os NFTs têm o endereço de seu criador salvo como parte do NFT. Da mesma forma, o atual proprietário que fez a compra da NFT também.
Agora, antes de irmos mais longe, é importante entender mais um aspecto dos NFTs. É exorbitantemente caro armazenar dados reais em uma blockchain, mesmo algo tão pequeno quanto um jpg 64x64. A maioria dos NFTs só terá alguns bytes de dados armazenados neles. Como, por exemplo, um número de série ou URL.
Esse custo de armazenamento corresponde a uma pegada de carbono de uma NFT média de edição única que equivale a dirigir um carro a gasolina por 1.000 quilômetros segundo Memo Akten.
Eu não pretendo abordar de forma mais ampla o impacto ambiental das NFT’s, e não sei nem se tenho a capacidade técnica para escrever sobre, mas não quero também ignorá-lo completamente nesse texto e a gente sabe que consciência ecológica nenhuma consegue parar mercados extremamente lucrativos em ascensão. Se quiserem se aprofundar. “O problema do CryptoArt” pelo ativista e artista digital Joanie Lemercier
“O Custo Ecológico Irracional dos CryptoArt” Memo Akten Ativista e artista digital
e esse link direto para o site que calcula as emissões insanas absolutas desses NFTs levando em conta transferências
“propriedade”
O criador de alguns meios de comunicação pode vender direitos legais à mídia junto com a venda de uma NFT.
Agora, fica problemático rápido, e é no qual muitas pessoas estão sendo enganadas.
Também, não há garantia de que o usuário que você está comprando o NFT dele realmente possuir os direitos à coisa representada/vinculada pela NFT.
As pessoas que procuram ganhar dinheiro rápido estão transformando tweets e obras de arte de outras pessoas em tokens não fungíveis (NFTs) sem sua permissão, com alguns alegando que as versões NFT de seu trabalho foram até vendidas por golpistas.
Na terça-feira (09 de março 2021), o usuário do Twitter @arvalis tuitou um aviso alegando que um bot do Twitter está transformando tweets em NFTs automaticamente e poderia estar abusando contra artistas.
A conta @tokenizedtweets permite que qualquer pessoa transforme um tweet em um NFT que é enviado para a pessoa que o solicitou. Essa não é necessariamente a pessoa que criou o tweet ou arte.
Até hoje no dia que escrevo, 14 de março 2021 não há nada legalmente que atinja os NFTs à propriedade de direitos digitais no momento. E nem projeções.
"ideologia"
Economia cripto é libertarianismo de direita na sua essência desde seu nascimento com a bitcoin em 2009. tudo gira em torno de tirar o estado, o intermediário, descentralizar etc. Não à toa reproduz suas estruturas de poder e destruição. não só arte, grande parte do mercado ainda é sobre memes e colecionáveis gameficados.
Os mercados de arte e o mercado financeiro tradicional são reproduzidos no ambiente crypto. mesmo com as mil promessas utópicas, muitos também têm se dado mal com as taxas. todos os nossos podres estruturais ecoam nas instituições e galerias famosas de NFT. Se o mercado da arte sempre teve seus problemas estruturais desde a colonização, com o mercado crypto não seria diferente se desenvolvendo com ainda menos regulamentação, por lá já vendem obras de artistas mortos e de culturas marginalizadas na maior nostalgia do neocolonialismo.

Afinal, oque vai acontecer conforme os governos perderem ainda mais poder sobre dinheiro, ações, mercado imobiliário, cartórios?
(aviso de conteudo sensivel)
Agora indo além da discussão idealista neoliberal: na blockchain é impossível remover ou alterar os dados registrados. o que vai acontecer quando começar a ser mais frequente revenge porn, pedofilia, discurso de ódio, documentos vazados, tutorial de terrorismo, gore?
Então, aqui, eu acho importante falar como já foi na internet antes acreditar na autogovernaça do próprio meio sobre esses conteúdos.
Se nos Chan's que são fóruns pretensamente anônimos, porém, na superfície da internet, onde o rastreamento de dados da internet é mais fácil, são palcos de situações absurdas como jovens pedindo dicas para cometer um massacre, no 4Chan o primeiro lugar da internet a publicar em 2014, centenas de fotos íntimas de personalidades de Hollywood, conseguidas óbvio, ilegalmente, também foi no 4chan, no mesmo 2014, que foi orquestrado uma série de ataques onlines, contra desenvolvedoras, jornalistas de games e gamers mulheres, a chamada GAMERGATE.
O criador do fórum Christopher Poole baniu todas as publicações em seu fórum que se relacionasse ao tema, o próprio que o afastaria do fórum em 2015. Esse apagamento das publicações ligadas ao Gamergate, fez com que avançasse outros Imageboards, que se apresentavam como alternativa, ainda mais inclinada a uma suposta liberdade de expressão (incensurável), mais difíceis de serem acessadas, exigindo algum programa específico, muitas vezes garantindo o anonimato, com muito menos moderação, que no 4chan já eram mínimas, uma crença quase profética que os próprios usuários iriam fazer a autorregulação.
No fim das contas esses novos forum, acabaram se tornando um refúgio digital anônimo para tópicos ligados a pensamentos à extrema direita que não são bem-vindos em outros fóruns digitais com moderação, como discussões envolvendo racismo, antisemitismo e misoginia extremamente violenta, lugares esses que se organizavam teorias das conspiração pró Trump e mais para a frente a invasão do capitólio.
Apesar de não ser o foco do presente texto, perceberemos que alguns temas são semelhantes aos grupos de cultura gamer, e que muitos desses indivíduos veem nos jogos ou nas comunidades um lugar seguro, ausente de críticas ou de problematizações.
O discurso da WEB 3.0 como algo incensurável e uma total comoditização da deep/dark web? Não que usar criptomoeda para as coisas erradas já não fosse prática desde o seu nascimento, assim como o mercado da arte, claro que, para quem procura, muitas dessas coisas são fáceis de se achar na internet. Porem agora a gente pode comprar e especular com videos de assassinato, colecionar. e se isso vira todo um nicho de entretenimento descentralizado? Como você derruba uma corrente de psicopatas? a gente vai precisar de organizações internacionais muito mais robustas do que as patifarias de hoje. a ideia deles é engolir tudo com sistemas de auto-governança, só rezo para o conseguirem criar um jeito de resolver isso, ou vai ser realmente muito feio.





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